sábado, 4 de junho de 2011

Intolerância

Aconteceu em uma só semana:

1) Perícia médica no Centro de Saúde, 8 horas da manhã. Um senhor senta-se ao meu lado. Puxa assunto, fala sobre banalidades e então começa a falar sobre Deus. Primeiro pergunta se eu tenho a Bíblia em casa, eu respondo que tenho apenas o Evangelho Segundo o Espiritismo, que sou espírita. Não satisfeito, ele pergunta se eu acredito na ressureição de Jesus, "mas na ressureição da carne". Eu respondo que acredito, mas que "não na da carne", e ele pergunta se eu penso que foi apenas o espírito. Eu digo que sim...
Foi mais ou menos assim, não necessariamente nesta ordem, que começou uma conversa (monólogo descreve melhor...), em que eu fui chamada de anticristo, entre muitos outros desrespeitos dados "com luva de pelica" e endossados com citações da Bíblia. Tentei cortar o assunto dizendo que "o que importa é acreditar em Deus, não é?". Não era...
O senhor estava apenas estava tentando me convencer que minha religião é coisa do diabo e que eu não deveria ser o que sou. Ok. Eu parei de tentar responder as perguntas dele na segunda ou terceira resposta em que ele combateu com empenho cada palavra que eu dizia. Vi que nada do que eu dissesse faria com que ele me respeitasse e parasse de tentar me convencer que eu estava servindo ao cramunhão.


2) - Você é católica?
- Não, sou espírita.
- É... - responderam-me com ar desolado.
Imediatamente segue outro comentário igualmente desolado, com ar de "fazer o que?" misturado à solidariedade pela minha "situação":
- É, na minha família também tem espírita.

Caraleo! Eu não sabia que agora tinha que ter vergonha de dizer que sou espírita! "Na minha família também tem espírita...". Como quem diz que na família também tem ladrões ou traficantes ou qualquer coisa do gênero...
Depois dessa frase, eu murchei. Fiquei o resto da noite meio sem graça, e senti mais ou menos o que um homossexual deve sentir quando conta pra alguém muito conversador que é gay: constrangimento, no mínimo.
Descobri que ser espírita, é fazer parte da minoria, e como toda minoria costuma ser alvo de preconceito pelo desconhecido que traz em si, não é de se estranhar...

3) Estava eu no intervalo de uma das escolas em que leciono, e surge este comentário de uma das professoras, observando um aluno que é cadeirante:
- É... Teve que mudar tudo por causa desses cadeirantes...
Ao que rapidamente responde outra professora:
- Fazer o que, né?
Cuma? Achei que eu não tivesse escutado direito, mas respondi com toda a educação que minha mãezinha me deu, até porque lá ainda sou sapo de fora e não quero me indispor com ninguém:
- A gente esquece que acessibilidade não é só pra cadeirantes, mas pra mães com carrinhos de bebê, também, por exemplo...
E passei a discorrer sobre a dificuldade que é andar com um carrinho nas ruas e calçadas da maioria das cidades, na maioria dos lugares... Aí acho que a ficha caiu, e elas começaram a falar sobre as mudanças que foram feitas até nas ruas e tals.
Muito fácil falar "fazer o que", quando ambas as pernas estão funcionando muito bem, obrigada. Muito fácil falar "fazer o que" quando você e ninguém da sua família e lista de amigos queridos pode andar e pular livremente os obstáculos que aparecem nas calçadas.
Acho que a tal professora nem sabe sobre o meu filho, mas ela é mãe, e poderia ser o dela.
Deficientes físicos não são um fardo para a sociedade, são pessoas igualmente "pessoas" como todas as outras que tem direito de ir e vir e o fazem sem dificuldade.

Um comentário:

  1. Oi! Sei bem o que é isso, já passei por isso muitas vezes, mesmo não sendo espírita, sou mórmon. Tenho amigos de religiões diferentes, inclusive espírita, e gosto muito de todos eles, e compartilho com eles a mesma dúvida: como é que pode existir tanta gente intolerante e ignorante nesse mundo...socorro! Tem que respirar e contar até 10 mesmo pra não pirar. Tudo de bom pro seu menino!!! :D

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(Pitágoras)